As sirenes lá fora pintavam as janelas molhadas do restaurante de vermelho e azul, mas Niko ainda não largava a jaqueta de Rafael. 🚨
Mesmo depois que o homem de terno foi empurrado contra a viatura policial, mesmo depois que os agentes tiraram os documentos de guarda falsos do bolso dele, mesmo depois que todos os motoqueiros do restaurante perceberam que o menino estava seguro, Niko ficou colado ao lado de Rafael, como se o medo tivesse costurado seus dedos no couro preto.
Rafael não mandou ele soltar.
Apenas pousou uma mão pesada no ombro do menino e ficou ali parado, o rosto marcado voltado para a chuva, observando o homem de terno sorrir mesmo algemado.
Esse era o detalhe que o incomodava.
Homens maus geralmente gritavam quando eram pegos.
Esse sorria.
A agente chefe, uma mulher alta chamada Ingrid Vale, entrou de volta no restaurante com a chuva brilhando em seu casaco e uma pasta embaixo do braço. Seus olhos foram de Rafael para Niko, e pela primeira vez naquela noite, sua expressão profissional rachou.
— Encontramos três crianças no motel atrás do posto de gasolina — ela disse baixinho. — Vivas.
Um som percorreu o restaurante.
Não era alegria.
Ainda não.
Algo mais pesado.
Uma respiração que o lugar inteiro havia prendido por anos.
Maribel, a garçonete, cobriu a boca com as duas mãos, e um dos motoqueiros perto do balcão se virou para a janela porque os olhos dele tinham enchido rápido demais.
Rafael olhou para Niko.
O menino fitava o chão.
— Eram quatro — Niko sussurrou.
O ambiente congelou novamente.
A expressão de Ingrid se fechou.
— O que você disse?
Niko levantou a cabeça devagar, e o medo em seus olhos se transformou em algo pior, porque crianças não deveriam parecer culpadas por terem sobrevivido.
— Eram quatro — ele disse. — Levaram minha irmã antes de eu fugir.
Rafael sentiu as palavras entrarem no peito como uma faca.
— Sua irmã? — ele perguntou.
Niko assentiu, os lábios tremendo.
— Anya. Ela tem cinco anos. Usava uma capa de chuva amarela. Ele disse que meninas pequenas são mais fáceis de mover quando ninguém está olhando.
Por um momento, ninguém no restaurante falou.
Então lá fora, através do vidro manchado de chuva, o homem de terno começou a rir.
Não era alto.
O que tornava tudo pior.
Rafael se virou lentamente para ele.
O homem de terno olhou pela janela, diretamente para Niko, e formou três palavras silenciosas com os lábios.
Tarde. Demais. Agora.
Niko soltou um som partido e enterrou o rosto no lado de Rafael.
Algo dentro de Rafael ficou muito calmo.
PARTE 3
O tipo de calma que uma vez fez homens adultos recuarem diante dele em becos, em fronteiras e em salas onde a misericórdia já havia falhado.
Ingrid viu aquilo e deu um passo à frente.
— Rafael — ela avisou —, não vá lá fora.
Rafael não se moveu.
Apenas olhou para o relógio em sua palma, o velho relógio de prata que Tomas Sokolov lhe dera antes de morrer. Ainda parado nas 2h17, ainda arranhado, ainda pesado com uma promessa feita em sangue.
Então Maribel, que ficara em silêncio perto do balcão, de repente abaixou as mãos.
— Capa amarela? — ela sussurrou.
Todos se viraram para ela.
Seu rosto havia empalidecido.
— O quê? — Rafael perguntou.
Maribel apontou para a porta da cozinha com o dedo trêmulo.
— Uns vinte minutos antes de o menino entrar, um caminhão de entrega parou lá atrás. Achei estranho porque já tínhamos recebido o pão de manhã. Vi alguém jogar uma capinha amarela na traseira, mas pensei que era roupa de lavanderia ou uma sacola. Não sabia. Juro que não sabia.
Ingrid se virou para os agentes.
— Saída dos fundos. Agora.
Três agentes avançaram pela cozinha, as botas martelando o piso, mas Rafael já estava se movendo. Ele afastou Niko gentilmente e o entregou a Maribel.
— Fica com ela — Rafael disse.
Niko agarrou sua manga.
— Não — o menino implorou. — Por favor, não me deixa.
Rafael se abaixou diante dele, e todos os rostos duros do restaurante amoleceram de uma vez, porque o homem mais assustador da sala de repente parecia um pai partido.
— Cheguei tarde demais pelo seu pai — Rafael disse. — Não vou chegar tarde pela sua irmã.
Então ele se levantou e caminhou pela cozinha.
Sem correr.
Nunca com pressa.
Apenas se movendo com o peso de cada promessa que havia falhado em cumprir até aquela noite.
Atrás do restaurante, a chuva era mais fria, o beco mais estreito e o mundo mais feio. As lixeiras cheiravam a óleo velho. Vapor subia por uma grade. Um caminhão de entrega estava torto ao lado da porta dos fundos com o motor ainda estralando.
Um agente arrancou a porta traseira.
Vazio.
Ingrid xingou baixinho.
Rafael se aproximou e olhou para dentro.
Não havia criança.
Nenhuma capa amarela.
Apenas uma luva molhada solitária no assoalho de metal.
Pequena.
Rosa.
Com uma estrela branca bordada.
Niko viu aquilo da porta da cozinha e gritou.
— Não!
Maribel tentou segurá-lo, mas o menino escapou e correu para a chuva, escorregando uma vez antes de Rafael o pegar.
— É da Anya — Niko soluçou. — É dela!
Ingrid falava rapidamente pelo rádio, ordenando bloqueios nas estradas, câmeras nas rodovias, todas as patrulhas num raio de cinquenta quilômetros, mas Rafael não estava mais ouvindo.
Ele estava olhando para o chão.
Ali, embaixo do pneu traseiro do caminhão, misturado com água de chuva e óleo, havia um rastro de pequenos fios amarelos.
Não em direção à estrada.
Em direção à floresta atrás do restaurante.
Rafael levantou a mão.
Todos os motoqueiros atrás dele ficaram em silêncio.
Seu grupo havia o seguido para a chuva, jaquetas de couro brilhando, rostos sombrios, motos aguardando como um trovão adormecido no estacionamento.
Rafael apontou para a linha de árvores.
— Não saíram com ela de carro — ele disse. — A carregaram.
Ingrid olhou para a floresta, depois de volta para Rafael.
— Você não pode levar cinquenta motoqueiros para uma busca federal.
Rafael finalmente a encarou.
— Pode chamar do que quiser para facilitar sua papelada — ele disse. — Eu estou chamando de trazer uma criança para casa.
Então um dos motoqueiros mais velhos, um homem enorme chamado Hiro Tanaka, deu um passo à frente e tirou o colete de couro.
Por baixo, no forro interno, havia uma pequena peça bordada que Rafael não via há anos.
Um círculo partido.
Três pontos pretos.
O mesmo símbolo do pulso do menino.
Rafael o encarou fixamente.
O rosto de Hiro desmoronou.
— Eu estava disfarçado antes de me juntar a você — ele disse, a voz tremendo. — Achei que aquele grupo tinha morrido com Tomas.
A chuva pareceu parar por um segundo impossível.
Então Hiro enfiou a mão no bolso e tirou uma chave velha com uma etiqueta plástica vermelha.
— Deus me perdoe — ele sussurrou. — Eu sei para onde levam as meninas.
Niko parou de chorar.
Rafael pegou a chave.
Ingrid abaixou o rádio devagar.
— Onde? — ela perguntou.
Hiro olhou além do restaurante, além das motocicletas, além da estrada que desaparecia na tempestade.
— A velha igreja perto da pedreira — ele disse. — Mas se já a levaram para lá, temos uns vinte minutos.
Rafael se virou para o seu grupo.
Nenhum discurso era necessário.
Um a um, os motores das motos rugiam do lado de fora do restaurante, fazendo as janelas tremerem e as xícaras de café vibrarem nas mesas. 🔥
Niko ficou na chuva ao lado de Maribel, apertando a luva da irmã contra o peito.
Rafael colocou o capacete preto, então olhou de volta para o menino.
— Prometi ao seu pai — ele disse. — Essa noite, eu cumpro.
Os motoqueiros saíram para a tempestade como um exército feito de couro, os faróis cortando a chuva, os motores uivando pela estrada vazia em direção à pedreira.
E atrás deles, ainda algemado ao lado da viatura, o homem de terno finalmente parou de sorrir.
Porque ele sabia o que mais ninguém naquele restaurante ainda sabia.
A velha igreja não estava vazia.
E Anya não era a única criança lá dentro. 😨